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Da Genética ao Sabor (Revista Vigor Econômico)

Pouca gente sabe, mas o município de Garça, reconhecido nacionalmente como a terra do café e berço dos melhores reprodutores nelore, também é referência no cenário da piscicultura. Isso se deve ao trabalho dedicado e perseverante do produtor Fernando Nagano Gomes Fernandes, proprietário da Santa Ana Aquacultura, engenheiro eletrônico que em 1993 iniciou-se na piscicultura, como um simples hobby, e hoje conquistou status de “doutor” na criação de peixes.

Sua empresa é pioneira nas atividades relacionadas à criação em escala comercial, oferecendo ao mercado alevinos e peixes adultos criados com modernas técnicas, além de diversas espécies utilizadas em sistemas de cultivo para a produção comercial, esportiva e lazer.

São mais de dez anos de pesquisa e o resultado já começa a ser descoberto pelo consumidor. Desde o ano passado, através do Frigorífico Fish Fácil, Nagano coloca no prato dos apreciadores o resultado desse trabalho. São filés de tilápia com sabor único, diferenciado, que abastecem restaurantes, petiscarias, açougues e supermercados de Garça e outras cidades do Estado. Com capacidade para abater 500 quilos de peixe por dia, atualmente o frigorífico está com toda a sua produção negociada.

A qualidade do produto, que o consumidor sente pelo sabor refinado, é garantida por uma série de fatores, que envolvem desde melhoria genética até cuidados especiais no abate. Toda a matéria-prima passa por um rígido controle de qualidade durante o processo de criação. São utilizadas espécies com o mais evoluído padrão genético das linhagens Tailandesa e GIFT.

Todos os peixes comercializados vêm dos tanques rede estabelecidos em represas de nascente própria da Fazenda Santa Ana, não havendo assim, risco de ocorrer alterações indesejadas na qualidade da água. Os animais são alimentados somente com ração balanceada produzindo um filé mais espesso e macio. O sistema de depuração do pescado garante um produto final de qualidade superior, isento de odores e sabores indesejados.

Durante o processo, as espécies permanecem cinco dias sem alimentação numa água puríssima, para limpeza do trato digestivo e eliminação de quaisquer resíduos (o mesmo ocorre com os alevinos que saem da propriedade). Em seguida, são abatidos por hipotermia (gelo). O sistema é mais higiênico, freando a proliferação bacteriológica.

Já no interior do frigorífico, o peixe é decapitado para escoamento de todo o sangue. “Por isso nosso filé é mais branco”, ressalta Nagano. Até o envasamento final, o produto é cercado de preocupações sanitárias. O acesso ao interior do frigorífico não é permitido durante a produção. O empresário utiliza toda a mão-de-obra feminina da propriedade no frigorífico. Durante a limpeza dos peixes, os resíduos sólidos, como vísceras e carcaça, não vão para o esgoto. Uma máquina possibilita a retirada da carne da carcaça, resultando num novo produto para o mercado: a polpa do peixe, ideal para confecção de nuggets, hambúrgueres, salgados, entre outros.

A polpa possui o mesmo valor nutricional do filé, mas tem preço mais acessível. Por isso, Nagano vê no produto um grande valor social, especialmente se usado na complementação alimentar de crianças da rede pública de ensino. Algumas prefeituras já descobriram a novidade e estão mantendo contatos com a empresa.

Juntamente com as vísceras, a carcaça vai resultar num futuro projeto do empresário: a produção de ração, que hoje representa 70% dos custos de produção. Além do filé de tilápia — que chega ao mercado em bandejas de 900 gramas — e da polpa, o frigorífico produz filé defumada e faz o aproveitamento do couro.

As peles da tilápia, que antes eram descartadas, se tornaram um grande atrativo comercial. Durante o processamento no frigorífico, a pele é retirada e encaminhada para um curtume na cidade de Franca. Após a preparação, o couro ganha as mais diferentes aplicações, como peças de vestuário, calçados, cintos, porta celulares, bolsas, almofadas. “Sem dúvida é uma grande opção para os artesãos de Garça que queiram desenvolver produtos diferenciados e com alto valor no mercado”, diz Nagano. Para se ter uma idéia do valor comercial do produto, uma manta (mosaico) de couro de peixe, medindo um metro por sessenta centímetros, chega a ser vendida por 100 dólares.

Da engenharia ao peixe — Levar um produto diferenciado à mesa do consumidor é mais uma meta cumprida pelo garcense Fernando Nagano, mas engana-se quem pensa que foi fácil. Formado em engenharia eletrônica, ele ingressou na Cesp (Companhia Energética de São Paulo) em 1991. Conforme revela, foi lá que manteve os primeiros contatos com a piscicultura, através do trabalho de reposição de espécies realizado pela empresa em áreas inundadas pelas barragens hidrelétricas. Nessa época ele ganhou seus primeiros alevinos e começou a se interessar pela área. Após sair da estatal, em 1994, Nagano trabalhou na empresa garcense PPA, onde ficou até 1998. Nesse período dividiu a profissão com a criação de peixes, seu principal “hobby”.

Com a participação em cursos, congressos, seminários, dentre outros eventos da piscicultura, Nagano adquiriu um vasto conhecimento. Vislumbrando as viabilidades econômicas do ramo, e movido pela paixão, decidiu dedicar-se exclusivamente a agricultura, assumindo a parte das atividades da propriedade da família.

Seu principal desafio foi dominar a lavoura de café, ainda hoje a principal atividade da fazenda. Mas o destaque da propriedade foi na área de reprodução de peixes da Piracema, que no começo eram vendidos para os pesque pagues. Até o ano de 2000, a Santa Ana esteve entre as principais fornecedoras para os pesqueiros de Garça e região. No laboratório da propriedade, projetado pelo próprio Nagano, são produzidos os alevinos que são fornecidos para criadores do eixo do médio Parapanema.

O produtor orgulha-se de estar entre os poucos do Estado que dominam a “melindrosa” técnica de reprodução induzida em laboratório. Isso garante à empresa comercializar praticamente todas as espécies durante todo o ano, não apresentando entressafra para as vendas.

A piscicultura faz parte da vida de Nagano. Foi por intermédio dela que conheceu sua esposa, a zootecnista Regina. Altamente especializada na área, é a principal parceira no empreendimento. Seus conhecimentos trouxeram uma contribuição técnica fundamental para que o laboratório da propriedade ocupasse o cargo de respeito entre os poucos existentes no Estado. Os experimentos feitos em Garça na área de genética servem de referência para laboratórios até de Universidades.

A Fazenda Santa Ana tem uma área de 131 alqueires, sendo que a piscicultura ocupa uma área de 3,5 hectares de espelho d’água, ou seja, cerca de menos 1% do total. Desde sua fundação, a Santa Ana Aquacultura vem se preocupando com o meio ambiente. Centenas mudas de árvores nativas já foram plantadas na propriedade, estabelecendo áreas de preservação permanente e perenizando as nascentes e cursos d’água. Mais que uma exigência, o proprietário entende que os investimentos feitos para preservar a mata ciliar são a garantia da manutenção do produto imprescindível para a sua atividade: a água.

Tanques rede — A criação de peixes em tanques rede ou gaiolas é um sistema intensivo relativamente novo. Para a Santa Ana Aquacultura, o surgimento dos tanques rede é tratado como um divisor de águas. “Foi uma revolução na piscicultura, pois o sistema viabilizou a produção de peixes em áreas que seriam impossíveis de ser exploradas”, diz Nagano, que possui 50 tanques em sua propriedade.

O sistema começou a ser implantado em 2002 e contribuiu para facilitar o manuseio, aumento da produtividade e conseqüentemente maior lucratividade.

No país o volume de peixes criados em sistemas de tanques rede cresce significativamente e a justificativa é simples: produtividade. Esse tipo de criação permite ter o maior número de peixes no menor espaço possível, o que reduz custos e aumenta a rentabilidade. Nos tanques rede a produtividade média é de 100 quilos de peixe por metro cúbico, instalados numa represa convencional, normalmente já existente nas propriedades.

Nagano apontou que entre as principais vantagens desse sistema produtivo está a maior facilidade de retirada dos peixes para venda (despesca), possibilitando uma produção escalonada. “O criador pode realizar a venda sem ter de baixar o lago, selecionando o lote desejado”, disse. Além disso, o sistema tem menor investimento inicial (60 a 70% a menos que viveiros escavados), facilidade de movimentação e recolocação dos peixes e intensificação da produção.

Um tanque rede de quatro metros cúbicos produz até 500 quilos de peixes por ciclo (a cada seis meses). “Levando-se em consideração que temos um ciclo e meio por ano, a cada dois anos teremos uma produção de uma tonelada e meio por tanque rede instalado”, explicou Nagano. A rentabilidade é de R$ 0,80 a R$ 1,00 por quilo. Uma represa de um hectare é capaz de abrigar de 30 a 40 tanques. Nesse caso, o criador teria de 1 a 2 salários mínimos de lucro. Os custos com a alimentação podem chegar a 70% dos custos totais de produção. Esse é o principal entrave para quem quer se iniciar na atividade.

Presente do Egito — A Tilápia do Nilo, principal matéria-prima do Frigorífico Fish Fácil, é hoje o peixe mais criado no mundo e a espécie que melhor responde ao sistema de criação em tanques rede. De acordo com Fernando Nagano, o motivo para essa unanimidade não é apenas o sabor suave da sua carne, cada vez mais procurada para o preparo de sashimis. A tilápia come menos ração e cresce mais. Enquanto os demais peixes oferecem uma conversão alimentar de 1,6, nas tilápias essa conversão é de 1,3. Explicando melhor: para se obter um quilo de carne de tilápia, o consumo de ração é de 1,3 quilo, ou seja, uma economia de 300 gramas de ração para a mesma quantidade de carne, pois ela complementa a alimentação comendo o plâncton dos tanques.

A prolificidade é outra qualidade da tilápia: reproduz-se quatro vezes por ano, com exceção aos meses mais frios. Além disso, é um peixe rústico, que sobrevive em qualquer ambiente, mesmo em águas com baixos níveis de oxigênio.

Outra característica importante apresentada é a possibilidade de manipulação hormonal do sexo para obtenção de populações masculinizadas, que são mais rentáveis. Essa reversão é feita no laboratório da propriedade. No primeiro passo, os reprodutores são marcados e misturados entre si para garantir uma diversidade genética. Após o surgimento das nuvens de larvas, são encaminhadas para o sistema de reversão no laboratório. Como não possuem sexo definido, por um período de 30 dias recebem ração com hormônio masculinizante (testosterona).

A preferência pelo exemplar macho se dá por várias razões. A principal delas é que o macho garante mais produtividade, engordando três vezes mais que a fêmea. “Exatamente por isso é um peixe mais interessante para quem faz a engorda”, explica Nagano. A experiência laboratorial representa 97% de resultados positivos. Já nos tanques de terra, ficam em média mais 20 dias, comendo, além do alimento natural, ração balanceada. Após seis meses seguem para o frigorífico.

Tilápia Gift — Em 2006, Nagano conseguiu, de forma inédita, que o laboratório de sua propriedade tivesse acesso a uma nova linhagem: a tilápia Gift. Através da Universidade Estadual de Maringá, com o garcense Ricardo Pereira Ribeiro. Provenientes da Malásia, a Gift (Genetically Improved Farm Tilápia) originou-se de um programa de melhoramento genético, por meio de um cruzamento de oito linhagens selvagens de tilápias do Nilo (Oreochromis niloticus). Essa nova variedade, se comparada com o mundo do nelore, pode ter um impacto como o Gim de Garça teve no mercado de gado. Ou seja, permitirá um avanço completo no fornecimento de carnes e de animais diferenciados.

Segundo Nagano, a experiência de cultivo mostra que a linhagem possui alto desempenho, melhor crescimento, maior peso individual, “filé” mais espesso e sem espinhos, melhores índices de reprodução e grande resistência se comparada às linhagens convencionais. O produtor sustentou que a espécie é um marco na melhoria genética. “Ela encurtou em 40 dias o ciclo de cultivo”, sublinhou.